sexta-feira, 12 de setembro de 2008

A carta do anistiado Poerner que O Globo deixou de publicar

ARTHUR POERNER

Os julgamentos de processos de anistia de jornalistas realizados no Rio ensejaram um noticiário crítico e pejorativo de O Globo, que, com chamada na primeira página, dois dias seguidos, classificou as indenizações de "bolsa-ditadura", como se os requerentes estivessem usufruindo algo imoral e indevido.

O tom do noticiário, repelido com veemência por Ziraldo, exposto à execração pública pelo jornal, motivou dezenas de cartas de leitores, todos indignados com a suposta benemerência concedida aos anistiados. O Globo publicou, porém, apenas as cartas afinadas com a linha do seu noticiário e não registrou as que contestavam a impressão que o jornal procurou incutir na opinião pública.

Entre as cartas renegadas estava uma do jornalista Arthur José Poerner, transcrita a seguir. Membro do Conselho Deliberativo da ABI, Poerner teve os direitos políticos cassados quando tinha 26 anos, sofreu prisões e torturas e teve de se exilar na Alemanha, onde viveu dez anos.

Disse Poerner no texto rejeitado, enviado ao jornal às 18h41min do dia 14 de abril:

Não posso deixar de me solidarizar com Ziraldo e Jaguar, valorosos companheiros da resistência cultural n'O Pasquim ao obscurantismo ditatorial, diante do linchamento moral a que vêm sendo submetidos por alguns leitores, nesta seção.

Acionado pelos mesmos princípios éticos e democráticos que me fizeram repudiar o golpe militar desde que surpreendido por ele, com menos de dois anos de profissão, no Correio da Manhã. Por expressar esta rejeição, sempre e só no que escrevi, tornei-me, aos 26 anos, o caçula dos punidos com a suspensão dos direitos políticos por 10 anos; respondi a IPM; fui processado pelo Ministro Suplicy de Lacerda; tive que fugir pela janela - com Edmundo Muniz e o exímio editorialista Franklin de Oliveira - na noite em que forças policiais-militares invadiram o jornal, enquanto o Alberto Cury lia, em cadeia nacional, o AI-5; acabei preso na Redação, em 1970, demitido, após mais de três meses de prisão no inferno do Doi-Codi da Barão de Mesquita, e, ante a impossibilidade de sobreviver aqui, exilado, por quase 10 anos, na Alemanha.

Como contabilizar perdas e ganhos (que os houve, embora não bafejados pela ditadura, na qual alguns vêem, equivocadamente, a grande musa dos cartunistas)? Incluir na conta os infartos, o romance inspirado na tortura, o conhecimento de outros povos e idiomas? Recebo, mensalmente, R$ 1.549,57 de aposentadoria de anistiado, ora rebatizada de "bolsa-ditadura" (certamente, por quem não vivenciou os anos de chumbo ou optou por vivê-los por caminhos menos perigosos do que os da resistência).

Agora, o massacre do Jaguar e do Ziraldo levanta a questão: sou um "bolsista da ditadura"? Sei que agi movido pela minha consciência, sem visar a ganhos financeiros, que não foi "investimento", mas, também, que, em todos os países regidos pelo Direito, o Estado deve reparações pelos danos que ocasiona. A esses malefícios, que podem ser erros médicos ou balas perdidas em tempos democráticos, se agregam, nas ditaduras, desde prejuízos profissionais e materiais causados pela censura e pela repressão cultural a mortes e seqüelas físicas e mentais resultantes de tortura. Calcular o custo de uma carreira interrompida (a não ser nos casos de militares, diplomatas e outros funcionários públicos) é quase tão difícil quanto avaliar o preço de uma vida.

Mais uma razão para que o nosso Estado jamais volte a ceder a tentações ditatoriais. Gera custos de reparação. Que os leitores zelosos com o erário e com a destinação dos seus impostos também pensem nisso.

Publicado no Jornal da ABI – maio de 2008

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